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De arroubos e jabuticabas

Paulo Afonso Linhares

Em momentos de perplexidades e grandes incertezas, é segura e útil aquela lição do historiador inglês Arnold Toynbee, para quem “uma curiosidade de explicar e compreender o mundo é o estímulo que leva os homens a estudarem o seu passado.” É a História que se gesta da curiosidade do homem por si mesmo. Por isto foi que, após ver uma polêmica entrevista de Jair Bolsonaro, candidato de PSL à presidência da República, resolvi reler aquele instigante livro de Carlos Castelo Branco intitulado “A renúncia de Jânio”, edição do Senado Federal. Afinal, como adverte George Santayana (pseudônimo de Jorge Agustín Nicolás Ruiz de Santayana y Borrás, um filósofo, poeta e ensaísta espanhol que, aliás, escrevia em inglês):“aqueles que não podem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo”.

Em suma, os povos que não conhecem a sua História correm o risco de repetir seus erros. Daí que lembrar das histrionices do “Homem da Vassoura” pode ser uma chave para compreensão da atual cena política brasileira.

Um dos mais importantes jornalistas brasileiro do século XX, “Castelinho”, que conviveu com os bastidores do poder, traz o mais significativo testemunho sobre esse episódio que tanto impactou a História nos anos 1960 e centrado na figura exótica de Jânio da Silva Quadros, um furacão bigodudo, vesgo, desengonçado e bêbado que, vassoura à mão, passou pelo Palácio do Planalto. Hoje, vendo o que faz e, sobretudo, diz o candidato Bolsonaro, inevitável não recordar o Mago de Vila Maria, Jânio da Silva Quadros, embora este fosse intelectual e culto. O populismo de direita, o corte autoritário e avesso à democracia , as ideias ultra-conservadoras e a propensão para dizer em tons de arroubos as coisas erradas nos momentos impróprios, aproxima esses dois personagem da política brasileira, um de ontem e outro de hoje.

A despeito da forte base popular, os sete meses de governo Jânio foram conturbados, sobretudo, pelas dificuldades cada vez maiores do relacionamento com o Congresso Nacional. A megalomania e esquisitices de Jânio Quadros produziram mais crises políticas do que poderia ser contornado pelo competente time de seus auxiliares e aliados políticos, como Oscar Pedroso Horta, José Aparecido de Oliveira, San Thiago Dantas, Afonso Arinos de Mello Franco e Araújo Castro, entre outros.

Para implantar a sua “política de austeridade” e de combate à corrupção, além de inovadoras medidas econômicas e administrativas – que deram ao seu governo de feição conservadora algo de revolucionário -, Jânio hostilizou além do razoável a sua base parlamentar (demonstrava enorme desprezo pelo Congresso Nacional), fustigou e afastou do seu convívio importantes figuras dos partidos aliados que garantiram sua eleição, a exemplo do poderoso governador do Estado da Guanabara, Carlos Lacerda, que passou a combatê-lo com a mesma tenacidade como fizera com Getúlio Vargas e Juscelino Kubitscheck. Sem poder acusá-lo de corrupto, Lacerda, o Corvo, passou a fustigá-lo em cadeia nacional de rádio e televisão com a acusação de que Jânio era um golpista e planejava o fechamento do Congresso para se manter no governo com poderes autocráticos.

Mesmo com enorme desgaste político e sem apoio parlamentar, Jânio renunciou à presidência da República através de lacônico bilhete remetido ao presidente do Congresso, senador Auro de Moura Andrade que, num gesto inusitado e sem rodeios, leu o curto escrito e de imediato declarou vago o cargo. Isto trouxe uma dificuldade para a tática de Jânio, que planejou chantagear o Parlamento e voltar ao governo com poderes extraordinários. Não funcionou e impôs ao país a degringolada política que desaguou no Golpe de 1964 e seus nefastos efeitos para as instituições democráticas que se estenderiam por 21 anos.

Episódios recentes da campanha de Jair Bolsonaro remetem-nos a Jânio e reforçam a suspeita de que as instituições democráticas podem estar em risco. “Pelo que eu vejo nas ruas, não aceito resultado das eleições diferente da minha eleição”, afirmou Bolsonaro em recente entrevista ao jornalista José Luiz Datena, da Band, a partir de sua desconfiança no sistema eleitoral brasileiro: “Não confiamos em nada no Brasil. Até concurso da Mega-Sena a gente desconfia de fraude. Estou desconfiando de alguns profissionais dentro do TSE”. Fechou o tempo.

Na mesma entrevista, Bolsonaro revelou que proibiu o general Hamilton Mourão, seu candidato a vice, de dar declarações políticas até o dia da eleição, por ter dito em palestra proferida no Rio Grande do Sul que o governo Bolsonaro-Mourão extinguirá o terço de férias dos trabalhadores, além do décimo-terceiro salário, esta “jabuticaba brasileira”, no seu entender. Um abalo enorme, porquanto o banimento desses direitos, aliás, está fora de todas agendas políticas, mesmo as daqueles partidos marcadamente liberais, a exemplo do Partido Novo, de João Amoêdo. O boquirroto general foi punido por seu chefe, Bolsonaro, com algo parecido ao “silêncio obsequioso”, uma das punições contidas no Código de Direito Canônico que é a imposição, pela autoridade eclesiástica superior à inferior faltosa, da proibição de produzir falas ou escritos públicos opinativos sobre matéria religiosa. Isso, na Igreja Católica Romana. A dúvida que remanesce é se o general Mourão vai aceitar esse “cala a boca, Ofélia!”. Noutro chão, no da caserna, general não acata ordem de capitão. Sem embargo, pelas regras do “jus militari” seria uma inaceitável inversão, todavia, o fato é que essa dissensão se dá noutro âmbito, no movediço chão da política, onde tudo pode acontecer, até boi voar. Para o Mourão-velho-de-guerra-nenhuma é melhor “já ir se acostumando” com essas inversões (ou perversões?) da hierarquia.

O freio de mão do capitão também serviu para corrigir seu guru, o ultra-conservador banqueiro Paulo Guedes que, de modo precipitado e não menos descuidado, disse que um dos pontos básicos do projeto econômico do governo Bolsonaro seria a recriação da famigerada CPMF, aliás, algo bem contraditório ao breviário liberal apregoado aqui e alhures. Guedes teve que sair na base do “não é bem assim” e, igualmente ao general Mourão, preferiu, também, o obsequioso silêncio.

Entretanto, talvez não fiquem tão calados assim por muito tempo, se confirmada nas urnas deste outubro de 2018 a tendência de vitória de Bolsonaro, para inaugurar uma era em que o arrombo vence a prudência, o retrocesso aniquila os avanços sociais e a barbárie, em múltiplas feições, se converte no credo da nova elite que terá empalmado o poder da República. Resta-nos acreditar que estava certo Heráclito de Éfeso quando numa curta frase, formulou o chamada Teoria do Devir: “tudo flui, nada permanece”. E nem será preciso imitar o bizarro suicídio desse filósofo em que cobriu o corpo de esterco e foi para a praça, onde cães raivosos o devoraram. Qualquer que seja o resultado que podem parir as urnas neste tempo desconfiado e de futuro incerto. Tudo passa, nada fica. Nem arroubos ou jabuticabas.

* Paulo Linhares é professor e advogado   

    

 

 

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Política

MPP requer a cassação de registros de candidaturas de 19 candidatos

(Foto: publicação)

Parlamentares utilizaram doação de viaturas com recursos da Assembleia para promoção pessoal e candidaturas podem ter seus registros cassados pela Justiça Eleitoral

O Ministério Público Eleitoral representou contra 19 deputados estaduais do Rio Grande do Norte por condutava vedada. Em abril deste ano, a Assembleia Legislativa do RN (Alern) fez a doação de 50 viaturas policiais ao Governo do Estado, com recursos do próprio Legislativo. No entanto, o ato se transformou em promoção pessoal dos parlamentares, que puderam definir até mesmo para onde os veículos iriam, beneficiando seus redutos eleitorais e desequilibrando – com uso de dinheiro público – a campanha em relação aos adversários.

Constam como representados nas ações os deputados estaduais Ezequiel Ferreira de Souza (presidente da Assembleia), Albert Dickson, Carlos Augusto Maia, Cristiane Dantas, Dison Lisboa, Galeno Torquato, George Soares, Getúlio Rêgo, Gustavo Carvalho, Gustavo Fernandes, Hermano Morais, Jacó Jácome, José Dias, Larissa Rosado, Manoel Souza Neto, Márcia Maia, Nelter Queiroz, Tomba Farias e Vivaldo Costa.

“O que enseja a presente demanda não é a aquisição nem a doação das viaturas em si – formalmente lícitas e certamente bem-vindas ao Estado, mormente num momento de caos na segurança pública e no sistema penitenciário –, mas o uso promocional que se fez disso, quando da entrega de cada uma das viaturas, em prol das candidaturas de quase todos os deputados estaduais da Alern. Esse uso promocional sempre esteve embutido nessa doação”, resume a representação do MP Eleitoral.

Com a prática, no entender do MP os parlamentares “largaram na frente na corrida eleitoral de 2018”, pois os demais concorrentes não puderam dispor de dinheiro público para “presentear” a população. Ao todo, foram gastos aproximadamente R$ 5 milhões.

Interesse público
Ao “carimbar” a destinação das viaturas para seus redutos eleitorais, os deputados – além de fazerem uso promocional da doação – impediram que as autoridades de segurança pudessem utilizá-las conforme a necessidade, levando em conta argumentos técnicos e não políticos, escolhendo por exemplo as áreas de maior incidência de crimes, ou os serviços que mais demandavam tais veículos. Alguns parlamentares, inclusive, afirmaram ter tomado suas decisões com base no pedido de prefeitos.

Assim, o interesse público, mais uma vez, deu lugar às intenções eleitorais implícitas daqueles que deveriam ser os representantes do povo”, reforça o MP Eleitoral. De acordo com a representação, a atitude dos parlamentares configurou a conduta vedada prevista no art. 73, IV, da Lei nº 9.504/97 (a Lei das Eleições), que proíbe aos agentes públicos fazer uso promocional da distribuição gratuita de “bens e serviços de caráter social custeados ou subvencionados pelo Poder Público“.

Propaganda
O uso “eleitoreiro” das doações se deu, em geral, tanto no momento da entrega, quanto posteriormente, através de fotos, vídeos e mensagens (em redes sociais, páginas pessoais e blogs de internet e até na propaganda de rádio e TV), que atribuíam a cada parlamentar a paternidade da benesse. Em uma das representações, o MP Eleitoral aponta que é “indisfarçável o desejo (do deputado) de gerar na população a crença de que o ato partiu não só da sua iniciativa, como também dos seus esforços e sacrifício, com nítido propósito de explorar eleitoralmente os dividendos que certamente adviriam dessa distribuição gratuita do bem em ano de eleições“.

Histórico
A Lei Estadual 10.150, sancionada pelo governador em 24 de janeiro de 2017, autorizou a Alern a doar até 50 viaturas policiais no valor total de R$ 5,1 milhão. O dinheiro saiu do próprio orçamento da assembleia e era fruto de valores restantes do exercício de 2016. Em 3 de abril deste ano foi realizada a cerimônia de entrega, no Complexo Esportivo de Brasília Teimosa, em Natal.

Cada parlamentar poderia indicar o município para o qual a viatura seria destinada, ou até mesmo o batalhão específico (quando se tratava da região metropolitana da capital). “Noutras palavras, garantiu-se a cada deputado um ‘quinhão’ da doação, para que ‘brilhasse’ individualmente com ela”. O MP Eleitoral requer da Justiça Eleitoral a suspensão das condutas, o pagamento de multa e a cassação do registro dos candidatos.

* Informações do MPRN