O entrevistado no quadro “6eis Perguntas” desta quinta-feira, 20 de novembro, como havíamos anunciado, é o advogado Jefferson Freire de Lima, com 25 anos de atuação na área. Um “bate-papo” recheado de informações e emocionante em alguns momentos. Jefferson fala de sua trajetória e desafios de forma tão leve que o texto flui muito bem, prendendo o leitor. E mais: fala sobre sua família, o que ela representou e representa em sua carreira na advocacia; referências na profissão; dos desafios no início e das mudanças; orgulho, valorização, generosidade, conselho, gratidão… tudo você verá (ou lerá) por aqui.
Vale muito a leitura. Das mais agradáveis e instigantes que já passaram por essa página. Agora é com você, caríssimo amigo:
1- Conte um pouco sobre você e como sua trajetória na advocacia ajudou a moldar quem você é hoje
JF-Revisitando minha própria história, gosto sempre de lembrar de onde venho, não apenas como um exercício de memória, mas como forma de reconhecer a base que me sustenta até hoje. Nasci em um lar simples, onde meus pais, José e Maria, com pouco, faziam muito. Era impossível não perceber o esforço diário, os gestos silenciosos de renúncia e o cuidado constante que os nossos pais dedicavam à nossa família.
Naquela rotina tão comum e, ao mesmo tempo, tão cheia de dignidade, aprendi algumas das lições mais importantes da minha vida: a força que nasce da perseverança, o valor de fazer o certo mesmo quando ninguém vê e a certeza de que grandes sonhos podem surgir de lugares pequenos.
Essa herança invisível, feita de exemplos, não só de palavras, segue comigo em tudo o que faço e foi determinante para que eu escolhesse a advocacia como caminho.
No percurso profissional, encontrei muitas referências, mas poucas foram tão marcantes quanto os advogados Alcimar de Souza, Tarcísio Jerônimo, Paulo Linhares e Marcos Araújo.
Cada um deles, à sua maneira, me ensinou que a advocacia verdadeira ultrapassa a letra fria da lei. Com eles aprendi que técnica exige disciplina, que detalhes importam e que cada caso merece não apenas conhecimento jurídico, mas também sensibilidade e comprometimento.
Ao unir essas influências à seriedade, à coragem e ao espírito combativo que sempre estiveram no meu jeito de ser, pude formar um perfil profissional que me orgulha, um perfil que não se afasta daquilo que vi dentro de casa, quando ainda era só um menino aprendendo, pela observação, o que significa agir sempre com integridade.
2– Quais foram os maiores desafios do início da sua carreira na advocacia e o que manteve você firme ao longo desses 25 anos de profissão?
JF– No início da minha carreira, nada foi simples. Assim como muitos jovens advogados, enfrentei dúvidas, limitações e aquelas provações que fazem a gente questionar se realmente vai conseguir avançar.
Aprendi cedo, porém, que perseverança, trabalho honesto e comprometimento verdadeiro com a causa são capazes de transformar qualquer começo difícil. E há algo que sempre me guiou: quando uma pessoa deposita em você a confiança de defendê-la, isso impõe um sentido maior à profissão.
Nesse momento, não existe espaço para atuar pela metade; é preciso entregar o melhor de nós, com esforço, responsabilidade e respeito pela história que carregamos. Foi assim que comecei, e é isso que continua movendo minha atuação até hoje.
3- Como você avalia as mudanças no sistema de Justiça ao longo dos seus 25 anos de carreira e quais desafios ainda persistem para a advocacia?
JF -O nosso sistema de Justiça mudou bastante nesses 25 anos, mas algumas coisas continuam praticamente iguais. Eu ainda sinto falta do básico: mais juízes, mais servidores, mais investimento para que a Justiça funcione como deveria.
A jurisdição é um dos pilares que seguram a sociedade de pé, e quando ela não recebe a atenção necessária, todo mundo acaba sentindo as consequências.
Ao mesmo tempo, vejo que surgiram novas disfunções. As metas do CNJ, por exemplo, têm seu papel administrativo, mas também trouxeram uma pressão que, muitas vezes, transforma processos em números.
E processo nunca é um número. Processo é história de vida, é dor, é expectativa, é alguém que está tentando resolver um drama real.
Isso exige muito mais sensibilidade de nós, advogados. A gente precisa lembrar o tempo inteiro que, por trás de cada página, existe uma pessoa. E manter isso vivo no meio de tanta cobrança talvez seja um dos maiores desafios da advocacia hoje.
4- Como você encontra equilíbrio entre a intensidade da advocacia e a sua vida pessoal, e de que forma essa conciliação influenciou seu modo de atuar ao longo dos anos
JF– Equilibrar a intensidade da advocacia com a vida pessoal nunca foi simples. A verdade é que a advocacia se aproxima muito de um sacerdócio: ela exige presença total, física e mental, e muitas vezes nos coloca diante de conflitos humanos que nos atravessam de maneiras profundas.
Ao longo desses 25 anos, vi colegas brilhantes adoecerem, enfrentarem depressão, ansiedade, burnou, situações que, infelizmente, já fazem parte do cotidiano da nossa profissão. É impossível ignorar o peso emocional que carregamos quando assumimos as dores e expectativas de tantas pessoas.
Por muito tempo, eu mesmo precisei aprender, quase na marra, que não existe dedicação sustentável sem um espaço de respiro. A advocacia cobra muito e, se a gente não se cuidar, ela cobra ainda mais. Foi então que percebi que precisava encontrar uma válvula de escape verdadeira, algo que me devolvesse energia, clareza e chão. No meu caso, esse equilíbrio veio pelo esporte.
O esporte me reconecta comigo mesmo. É onde reorganizo a mente, renovo as forças físicas e encontro aquela “respiração profunda” que me permite voltar para o escritório mais inteiro, mais lúcido e, principalmente, mais humano. Essa prática constante me ensinou que, para cuidar bem dos outros, que é, no fundo, o que a advocacia faz, a gente precisa primeiro cuidar de nós mesmos.
Hoje, entendo que essa conciliação não é um luxo, mas uma necessidade. E foi justamente ela que moldou meu modo de atuar: mais atento aos sinais do corpo, mais respeitoso com meus limites, mais presente para meus clientes e mais consciente de que a longevidade na advocacia depende, antes de tudo, da saúde mental e emocional de quem a exerce.
5- Que conselho você daria ao jovem advogado que você foi há 25 anos e que ainda serve para quem está começando hoje?
JF- Se eu pudesse conversar com o jovem advogado que fui há 25 anos, e, ao mesmo tempo, com quem está começando agora, diria, antes de tudo, que a advocacia é uma maratona, não uma corrida de velocidade. E, nesse percurso longo, alguns princípios nunca perdem valor.
O primeiro deles é a ética. Seja ético com você, com os atores do sistema de Justiça e, principalmente, com os seus clientes. A advocacia não comporta atalhos. Quem tenta encurtar o caminho sempre descobre, cedo ou tarde, que aquilo que parecia vantagem vira obstáculo. A ética é o que sustenta uma carreira inteira. Sem ela, nada se sustenta.
Diria também para valorizar a técnica. Estude, aprofunde-se, comprometa-se de verdade com cada causa. O dinheiro e o sucesso não são objetivos, são consequências naturais da postura profissional que você constrói no dia a dia. O cliente percebe quando o advogado está entregue, preparado e comprometido, assim como percebe quando não está.
A advocacia tem ciclos. Já houve o momento da área trabalhista, depois o boom da previdenciária. Hoje elas seguem importantes, mas o futuro já sinaliza outras frentes igualmente promissoras e muito menos concorridas, como a propriedade intelectual, a proteção de dados e a tecnologia. E, assim como essas, existem outras áreas silenciosas, à espera de quem tenha coragem de desbravá-las com seriedade.
No fim das contas, eu diria ao jovem advogado, e a todos que estão começando, que trabalhem com honestidade, dedicação e paciência. A advocacia retribui quem a trata com respeito. Tudo o mais virá: o reconhecimento, a estabilidade, as oportunidades. Basta seguir firme nos princípios que nunca mudam, mesmo quando o mundo inteiro muda ao redor.
6- De que forma sua família influenciou sua trajetória na advocacia e o ajudou a atravessar os desafios desses 25 anos de carreira
JF– A minha família é, sem exagero, o alicerce de tudo o que construí na advocacia. É o meu propósito, o que dá sentido às vitórias, às noites mal dormidas, às renúncias e a toda a intensidade que esses 25 anos de profissão carregam. Sempre acreditei que ninguém atravessa uma carreira longa e exigente como a nossa sozinho, e, no meu caso, cada passo que dei foi sustentado por quem caminhava ao meu lado.
Carrego um sentimento que me acompanha desde cedo: meu pai partiu prematuramente e só conseguiu ver uma parte pequena da minha trajetória. Ressinto essa ausência todos os dias, porque sei o quanto ele teria se orgulhado de tudo que vivi e construí.
Por outro lado, fui abençoado com a presença da minha mãe, a mulher mais guerreira que conheço. Ela foi, e continua sendo, a força silenciosa que segurou nossas bases quando tudo parecia difícil demais. É incansável, firme e foi determinante para que eu pudesse trilhar o caminho da advocacia com segurança emocional e sentido de responsabilidade.
Tenho também uma esposa corajosa, que não apenas compartilha a vida comigo, mas acolhe o peso da profissão com compreensão e parceria. Ela sustenta a minha rotina intensa com uma serenidade que me inspira todos os dias.
E, como se a vida quisesse reforçar esse sentimento de continuidade, minhas duas filhas, Sofia e Tarcila, a expressão mais pura do meu amor, escolheram cursar Direito. Vê-las trilhando esse universo que tanto me moldou é uma das maiores alegrias da minha vida.
Minhas irmãs, cada uma à sua maneira, seguem pavimentando seus próprios caminhos. Eu acompanho essa jornada de perto e não tenho dúvida de que chegarão onde desejam, porque carregam a mesma força e a mesma dignidade que herdamos de casa.
Se existe algo que aprendi nesses 25 anos é que a minha história não é feita apenas de processos, sustentações e vitórias jurídicas. Ela é feita, sobretudo, de gente. Da minha gente. E, por isso, posso dizer sem medo de errar: sou a pessoa mais sortuda do mundo.
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