Por Laurita Arruda (Território Livre)
A movimentação em torno do projeto da governadora Fátima Bezerra (PT)de disputar o Senado Federal ganhou, nos últimos dias, novos contornos políticos e simbólicos. O que até janeiro parecia uma estratégia sob forte turbulência — com risco real de naufrágio — passou a exibir sinais de reorganização e reação.
Para viabilizar a candidatura ao Senado, Fátima teria de renunciar ao Governo do Estado, abrindo caminho para a eleição indireta de seu sucessor pela Assembleia Legislativa.
O desafio é matemático e político: conquistar ao menos 13 votos no universo de 24 deputados estaduais aptos a votar.
Dos reveses à reorganização
Janeiro foi um mês de abalos. O rompimento com o vice-governador Walter Alves desmontou a engenharia institucional que garantia uma transição natural. Em seguida, o chamado “choque de realidade” com o presidente da Assembleia Legislativa, Ezequiel Ferreira de Souza, expôs que o controle do processo sucessório não seria automático nem protocolar.
A leitura predominante naquele momento era de que a governadora estava “nas cordas”, isolada e sem maioria consolidada para conduzir uma eleição indireta sob seus termos. O ambiente interno da Assembleia indicava resistência à ideia de um sucessor escolhido unilateralmente pelo Executivo.
Mas a política é dinâmica. E a reação veio.
Exonerações e mapeamento
Nos últimos dias, a governadora promoveu exonerações de ex-aliados e intensificou o mapeamento detalhado de votos na Assembleia. O gesto foi interpretado como recado interno: a disputa deixou de ser apenas institucional e passou a ser francamente política.
Hoje, segundo interlocutores próximos ao governo, ela contaria com sete votos considerados firmes: Divaneide Basílio, Dr. Bernardo, Francisco do PT, Isolda Dantas, Vivaldo Costa, Ubaldo Fernandes e Eudiane Macedo. Um núcleo ideologicamente coeso, mas insuficiente.
São necessários mais seis votos.
O campo possível
A conta não passa pelo bloco mais radical do PL, alinhado ao senador Rogério Marinho, onde a resistência é estrutural. O foco está nos parlamentares de perfil pragmático, fora do núcleo bolsonarista, e que tradicionalmente operam na lógica municipalista.
Nove nomes aparecem no radar político como potenciais interlocutores: Cristiane Dantas, o próprio Ezequiel Ferreira de Souza, Galeno Torquato, Hermano Morais, Ivanilson Oliveira, Kleber Rodrigues, Neilton Diógenes, Taveira Júnior e Nelter Queiroz (foto).
Quem conhece a geografia política daquela Casa avalia que o número é possível — e até crível — desde que as conversas avancem além da retórica.
Não basta articulação protocolar. Será preciso pactuação concreta.
A nova linguagem da negociação
Um ponto é consenso entre veteranos da política potiguar: cargos e espaços no governo já não são suficiente. O ambiente mudou. O ano eleitoral altera prioridades individuais. Cada deputado está com o foco na própria sobrevivência política.
A linguagem agora é outra.
Convênios, liberações de emendas e compromissos administrativos com forte impacto municipal tornaram-se o centro das tratativas. Não se trata de promessas genéricas, mas de engenharia fina — costuras técnicas que envolvem cronogramas e garantias formais.
Em outras palavras: menos discurso ideológico, mais execução orçamentária.
O clima mudou?
A percepção no meio político é que o clima deixou de ser de derrota iminente para se transformar em disputa aberta.
A governadora demonstra disposição de ir ao enfrentamento e reorganizar sua base, ainda que isso implique ruptura com antigos aliados.
No tabuleiro da Assembleia, nada está decidido. Mas, diferentemente de janeiro, já não se fala apenas em fragilidade. Fala-se em disputa real — com matemática apertada, pragmatismo elevado e negociações que precisarão ser fechadas muito além da saliva.


